Receber boletim:
Busca
Home >> Notícias >> Artigos

A ameaça dos micróbios e o ataque
dos vermes

David Uip


A ameaça dos micróbios e o ataque<br> dos vermes

Dr David Uip

Segundo a definição clássica, micróbios são seres microscópicos capazes de produzir doenças nos seres humanos e animais. Verme é qualquer animal invertebrado de corpo alongado e mole, também definido como parasita intestinal e pessoa desprezível. Alguns micróbios causam doenças inéditas; outros já conhecidos infectam novos ou maiores grupos populacionais, podendo causar milhares de mortes. Em pleno século XXI, dizimar micróbios e vermes continua a ser o grande desafio para a saúde mundial. Particularmente para o Brasil, exterminá-los é questão urgente de saúde pública e também de ética e de adequada gestão dos recursos do País para o bem estar da sociedade.

Nos últimos 15 anos, novos agentes biológicos foram descobertos e associados a doenças – são exemplos o vírus da febre hemorrágica brasileira e o da gripe aviaria. Em outro fronte, cerca de 2 bilhões de pessoas vivem em áreas sob risco epidêmico de dengue; 400 milhões estão infectados pelo vírus B e 170 milhões pelo C da hepatite; e 45 milhões pelo HIV – 95% deles em países em desenvolvimento. A esses números podemos acrescentar um terço da população mundial infectada pela tuberculose e um milhão de pessoas que morrem por ano de malária.

O quadro nos remete a inúmeras inquietações. A primeira delas é se há investimentos da indústria mundial para a descoberta de novos imunizantes e antimicrobianos, inclusive para doenças que mais afetam países em desenvolvimento. Outra é como evitar a estimativa de 57 milhões de mundo por doenças infecciosas e parasitarias, se não houver investimentos em saneamento básico.

Se o mapa das doenças infectocontagiosas pende para os países pobres, o da distribuição de recursos também é desigual. Cerca de 90% dos recursos mundiais na saúde são consumidos por 10% da população do mundo. O Brasil investe apenas 7,6% de seu PIB em saúde – e mesmo assim 59% desse montante vêm do setor privado e apenas 41% do público.

O segmento de saúde suplementar, um dos investidores do sistema, está insatisfeito desde as operadoras até os prestadores de serviço, os hospitais os profissionais, todos insuficientemente remunerados. Os usuários, por sua vez, sentem-se ludibriados em seus direitos. Os hospitais públicos universitários precisam de recursos adequados para a assistência e diferenciados de outras fontes que não secretarias e Ministério da Saúde, para manter o ensino e a pesquisa de excelência.

Enfim, a Constituição Brasileira de 1988 acertou, sem dúvida, no modelo de saúde no Brasil ao formular as diretrizes do SUS, mas ainda falta definir quem paga a conta.

Para sair dessa equação que não fecha diante dos imensos desafios, a saúde precisa de investimentos, gestão eficiente, inclusive do conhecimento, criatividade e uma boa dose de moralização. A aprovação da Emenda Constitucional nº 29 foi importante, e há grande expectativa na aprovação do Projeto de Lei Complementar 01/2003, que destina 10% das receitas brutas para a saúde. Mas é na aplicação dos recursos na saúde que o problema é dramático e, nessa área, temos amostras nacionais de vermes que em nada perdem para as mais prevalentes do mundo. São exemplos os vampiros da máfia do sangue, os sanguessugas das ambulâncias, as amebas da vida livre – que surrupiam materiais de hospitais públicos e privados -, e até os chamados “vermes de colarinho branco”, exímios em desviar dinheiro desde a origem no orçamento até o destino final em programas de prevenção e atenção básica à saúde da população. Um verme para formar quadrilhas e causar danos a tantas pessoas deve contar com associados hierarquicamente superiores que promovam integração.

A corrupção é um estado de adaptação do ser humano inescrupuloso ao meio nefasto em que pensa que vai continuar a sobreviver. Enganam-se os que acreditam que essa doença endêmica jamais será erradicada. Nós, profissionais da saúde, devemos e já iniciamos um grande processo de demonstração de indignação como que acontece e, quiçá, sempre ocorreu no Brasil. No entanto, apenas indignação não basta.

As campanhas políticas estão nas ruas e o voto nas mãos de cada um. Não se cura verminose com voto branco ou nulo. O melhor remédio talvez seja o bom e antigo “bisturiciclina” desses micróbios e vermes da saúde pública diretamente na boca da urna.

 

David Everson Uip é Conselheiro da Fundação Mario Covas, professor titular da FMABC, professor livre docente da FMUSP, diretor executivo do Incor-HCFMUSP e coordenador do Programa de Cooperação Brasil-Angola de Luta contra Sida e Endemias.