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Exemplo de Vida


A notícia de que o Governador de São Paulo- Mário Covas (PSDB), fora internado em es-quema fora das previsões da equipe médica que o assiste ao longo da enfermidade apenas surpreen-deu aqueles que se conformam com os bo-letins oficiais. Embora a história recente do país ofereça exemplos de que essa política nem sempre é confiável - e o caso de Tan-credo Neves é o mais ilustrativo do ponto a que podem chegar estratégias desse tipo -, ainda existem pessoas que preferem dar crédito aos tediosos boleúm, que em algu-mas palavras tentam tranquilizar a platéia. Faz parte da cultura brasileira cercar o doente de cautelas e esperanças nem sem-pre correspondentes à verdade dos diagnósticos. Essa condescendência se verifica em todas as escalas das relações humanas, até mes-mo no ambiente familiar. Pou-par o enfermo de ser informado dos riscos que corre em razão de determinada moléstia é seme-lhante a uma espécie de perdão tácito concedido de hábito aos que assam por transes de difícil superação. Um faz-de-conta que satisfaz a todos, a partir do próprio enfermo, com ra-ras e cada vez mais freqüentes exceções. O governador dos paulistas, determina-do e insistente por injunções do próprio temperamento, vem dando, ao longo do tempo em que enfrenta sucessivas recidi-vas de uma doença ainda sem grandes pos-sibilidades de cura total, demonstrações incomuns de fortaleza interior, de capaci-dade de superação dos problemas pessoais em nome da governabilidade de São Pau-lo. Resta saber se é assim mesmo. Todos os que o cercam, de familiares a médicos. passando pela mídia, encenam o jogo de que está tudo bem, como é praxe entre nós. Teimoso, e, nesse caso, com al-guma ponta de auto-afirmação, o gover-nador insiste em participar de solenida-des em locais distantes de sua residência, que exigem locomoção conturbada em ra-zão de suas atuais restrições físicas, como se necessário fosse provar alguma coisa a alguém. Nada mais falso do que, por exemplo, ir às compras, quando se sabe que até mesmo as lojas de sua predileção têm por hábito levar os novos lançamen-tos para que sejam escolhidos em seu ga-binete ou em casa. Semelhantes fatos, que dia a dia cola-boram para desmontar o castelo de cartas habilmente armado ao seu redor, interes-sariam apenas aos mais chegados à pes-soa que passa por essa provação. Ocorre que os episódios se dão em relação ao go-vernador de São Paulo, o mais importante Estado da federação, e de suas decisões dependem negócios, empregos, verbas oficiais e inúmeras outras situações. É esse o outro lado importante da questão, que vem sendo omitido até mesmo por jornalistas mujas fontes de in-formação são lidas como de primeira linha. Enquanto essa estratégia ainda consegue manter o gros-so da opinião pública fora do debate sobre a eventual suces-são de Mário Covas, já o mesmo não ocorre entre responsáveis pela atividade produtiva, novos prefeitos e todas aquelas parcelas de cidadãos que geram e administram a ri-queza paulista. Uma grande interrogação paira acima de todas as cabeças, até por-que o vice-governador tem temperamen-to retraído e idéias e pensamentos ainda pouco testados. Afinal, diante da história de vida do go-vernador, tanto como homem quanto po-lítico e democrata, fica realmente difícil de entender o que se passa, acima e atrás da doença que infesta seu organismo. Até porque seu currículo não autoriza que se credite semelhante desgaste físico a qual-quer tipo de reconhecimento público ou coisa semelhante e muito menos que ele ou seu grupo estejam investindo em no-vas empreitadas. O que realmente fica, afinal, é o espírito de luta contra a adver-sidade e que, acima das próprias diver-gências políticas, essa garra sirva de exemplo, como aliás tem servido a pró-pria vida do governador Mário Covas.